“Coringa”: denso, ultraviolento… e fascinante

O genial filme-solo do maior vilão da DC Comics nos lembra que é não somente possível, como urgente, fazer cinema de verdade a partir de história em quadrinhos

Cultura e Educação
Data: 11 de outubro de 2019
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Atônito – é como o espectador médio se sente ao subirem na tela os créditos finais de “Coringa” (EUA, 2019), após duas horas ininterruptas de um teste emocional quase extremo.

A empreitada do diretor Todd Philips (de Se Beber, Não Case) e o ator Joaquin Phoenix (que interpreta o protagonista) de construir um filme complexo, capaz de suscitar um amplo debate político, psicológico e sociológico, a partir da história do surgimento de um vilão de história em quadrinhos, revela-se magistralmente bem sucedida, e representa outro marco memorável no universo das adaptações de HQ’s para o cinema.

“Coringa” se dedica basicamente a mostrar, em duas horas de projeção, quem é o vilão, de onde ele veio e por que se tornou tão perverso e demoníaco. Arthur Fleck – seu nome de batismo – é retratado como o resultado de uma equação perigosa das mazelas da sociedade em que vive, e da penosa doença mental que o acomete.

Entretanto, esse processo de caracterização do Coringa como produto do seu meio passa longe do discurso populista, e é retratado de uma maneira tão assustadoramente sutil e realista, e ao mesmo tempo crua, dos sofrimentos e traumas do personagem, que fica difícil não se colocar no seu lugar em vários momentos.

Fleck vive na caótica Gotham City do início dos anos 80, uma grande cidade dominada pelo crime, a marginalidade, a corrupção e a precariedade dos serviços públicos. Portador de doenças psiquiátricas, sobrevive fazendo bicos como palhaço (única profissão com que afirma se identificar), recebendo um salário miserável, e dependendo dos serviços de saúde oferecidos pelo governo para fazer terapia e obter medicação – que, em determinado momento, são cortadas, e ele fica completamente à míngua.

 

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Vítima de sua própria doença mental, do preconceito social (é rejeitado onde quer que vá por ser “estranho”), de agressões verbais e físicas, carente de afeto e privado de seus medicamentos, ele surta completamente após uma grande decepção familiar, ao mesmo tempo em que passa a ver a si próprio como um símbolo de anarquia e vingança contra a sociedade injusta e hipócrita. Surge, então, o Coringa como o conhecemos – o vilão psicótico e maquiavélico, com roupa e maquiagem de palhaço, que se tornará a maior ameaça à paz de Gotham.

Um dado importante é que o Coringa deste filme não tem nenhuma relação com suas outras aparições nos demais filmes do estúdio, assim como não está planejada nenhuma continuação, tampouco nenhuma extensão do universo em que o longa se passa. Ainda assim, o filme faz alguns links com a história de Batman (a família Wayne é retratada no filme, e o patriarca, Thomas, tem papel proeminente no enredo).

“Coringa” é um típico exemplo do que somente a DC Comics e a Warner Bros podem oferecer em matéria de filme baseado em HQs: nenhum outro estúdio (com a possível exceção da Fox, que arrasou com Logan, de 2017) é capaz de entregar, no gênero, cinema autêntico com essa magnitude.

Em forte contraste com a pirotecnia e o tom de “parque de diversões” de apelo comercial que caracterizam os filmes da concorrente Marvel, a DC-Warner tem a tradição de dar aos cineastas bem mais espaço para a criatividade e a ousadia. Não por acaso, a reviravolta imediatamente anterior ocorrida no gênero se dera com “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008), que surpreendeu ao levar os filmes de super-heróis a um patamar muito superior em termos de estética, temática, roteiro e atuações.

Por falar em atuação, aliás, quando se trata de Coringa, é sempre obrigatório questionar se foi boa o suficiente – o personagem tem um histórico de encarnações memoráveis, como a de Jack Nicholson, em 1989, e a de Heath Ledger, em 2008 (que rendeu ao ator um Oscar póstumo), mas também de algumas decepções, como aquela totalmente esquecível de Jared Leto em “Esquadrão Suicida” (2016).

 

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Joaquin Phoenix, entretanto, cumpre essa difícil missão com competência magistral: seu Coringa é, de longe, o mais sofrido e dramático até aqui, e também, em grande medida, o mais humano. Uma interpretação inspirada, orgânica e sem exageros, digna de um Oscar.

Seria um erro, porém, compará-la à interpretação de Heath Ledger: com efeito, este é um caso em que absolutamente não é possível afirmar qual delas é melhor. Cada qual foi excelente para o contexto do filme na qual se inseriram: em O Cavaleiro das Trevas, o Coringa de Ledger era a encarnação da anarquia e da degradação moral, e tanto a maquiagem tosca e borrada quanto a voz e os trejeitos psicóticos modelavam a essência do personagem e de seu significado no roteiro –  que não se preocupava em explorar a identidade ou a origem do vilão.

Já em “Coringa”, a pegada é bastante diferente: antes de conhecermos o vilão-palhaço, Joaquin Phoenix nos apresenta Arthur Fleck e seu processo de ascensão ao mal. Não havia Batman em Gotham, nem Harvey Dent, nem a exploração dos limites e dilemas morais dos personagens que caracterizavam o filme de Christopher Nolan em que Ledger atuou. Daí a se fazer muito mais sentido dar mais vazão à humanidade do personagem e adentrar seus próprios conflitos psicológicos.

A atuação magistral de Phoenix e todas as demais características do filme já citadas se juntam a uma linguagem visual que preza por tons cinzentos, lúgubres, e mostra cenários urbanos sujos e degradados, que passam ao espectador a todo instante uma sensação de incômodo e desesperança – a mesma que assola os cidadãos de Gohtam City. Esta é, aliás, de longe, a melhor e mais fiel caracterização de Gotham já vista no cinema.

 

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Some-se a isso a forma brutal e crua como a violência é mostrada, com muito, muito sangue, e o resultado é inevitável: “Coringa” é um filme tão requintado quanto perturbador, e provoca no espectador reações emocionais intensas e memoráveis, de uma maneira que só uma autêntica obra de arte é capaz – e prova definitivamente que histórias em quadrinhos, podem, sim – e devem – render cinema de verdade.

Particularmente perturbadora, entretanto, é a constatação do quão próximo da realidade do mundo atual o filme chega em vários momentos, especialmente para nós, brasileiros. De fato, é como se vivêssemos em uma grande Gotham City, só que sem Batman para nos salvar.

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