O que achamos de “Star Wars: os Últimos Jedi”

Ponto baixo da nova trilogia, o Episódio VIII mais frustra que agrada. Mas, vale à pena conferir

Cultura e Educação
Data: 26 de dezembro de 2017
Kylo Ren

Desde que os primeiros trailers de “Episódio VII: O Despertar Força” foram divulgados, os fãs de Star Wars esperam ansiosamente pela reaparição do protagonista Luke Skywalker nos filmes da nova trilogia – a primeira sob a batuta da Disney e sem participação do criador da saga, George Lucas.

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Como já não bastasse o fato de “O Despertar da Força” não ter correspondido a essa expectativa, ao contrário do que os vídeos promocionais à época sugeriram [Luke passa o filme inteiro ausente e só aparece na cena final, por poucos segundos], o novo filme, “Episódio VIII: Os Últimos Jedi” a frustra de maneira desconcertante.

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Em primeiro lugar, o Luke que aparece aqui não é o mestre Jedi maduro e experiente de que se poderia esperar. Está muito longe de um Yoda ou um Obi-WanKenobi. É, em muitos aspectos, mais cabeça-dura, egoísta e juvenil que o jovem fazendeiro da primeira trilogia [1977-1983]. Definitivamente, o tempo não fez bem a ele.

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Segundo, o destino que dão ao personagem é quase tão frustrante quanto sua própria aparição neste filme – e, aqui, vemos que as queixas do seu intérprete, Mark Hamill, sobre isso, faziam sentido. Hamill, deve-se salientar, é isento de qualquer culpa pelos defeitos do filme. A qualidade de sua atuação é primorosa como jamais antes.

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Star Wars: The Last Jedi..L to R: Rose (Kelly Marie Tran) and Finn (John Boyega)..Photo: David James..©2017 Lucasfilm Ltd. All Rights Reserved.

 

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Se Luke foi um personagem mal trabalhado neste filme, que dizer então de outros personagens que, embora novos, são [ou deveriam ser] chaves na franquia? Para citar alguns exemplos, Finn, o Supremo Líder Snoke e… a própria protagonista, Rey.

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Não vamos soltar spoilers, então tudo o que podemos dizer é que, se havia algo de grande ou surpreendente a esperar de algum desses personagens “Os Últimos Jedi” trata de desiludir o espectador de uma vez por todas. Eles todos são, enfim, só “aquilo” mesmo que havíamos visto no filme anterior, e nada mais.

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Isso é particularmente perturbador no que concerne a trilogias, pois a lógica vigente em todas elas, sem exceção, é que o primeiro filme sirva sobretudo para introduzir os personagens, suas fraquezas e conflitos [missão que “O Despertar da Força” cumpriu bem], para que, depois, o segundo e o terceiro filmes mostrem o aprofundamento dos conflitos e o fortalecimento deles rumo à redenção.

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Rey, no entanto, parece neste filme a mesma garotinha ingênua do anterior. Arriscamos a dizer que ela está até menos interessante, mais fraca. Snoke, mais que nunca, soa como vilão de desenho animado, e Finn se cristaliza como aquele que serve para amarrar as subtramas menos interessantes e dar algum alívio cômico às tensões sobre política, guerra e Lado Negro da Força presentes em qualquer roteiro de Star Wars que se preze.

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Outro ponto baixo em termos de personagens é Ben Solo/KyloRen. Por mais que tente crescer na maldade, o personagem de Adam Driver não consegue meter medo em ninguém. Sua vilania simplesmente não tem consistência, não tem profundidade. Continua difícil de entender porque aquele jovem narigudo e inseguro sucumbiu ao Lado Negro, exceto por conta de um infantil desejo de imitar o avô materno, Darth Vader.

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Por falar em falta de profundidade e consistência, aliás, o novo Star Wars, infelizmente, reflete bem o espírito do nosso tempo: superficial, relativista e avesso ao conhecimento. Exemplo: Rey, para se tornar Jedi, não precisou estudar nem treinar nadinha. Os livros antigos da religião Jedi, por sua vez, não servem para nada, pois tudo se aprende por “osmose” [ou, quem sabe, por uma breve consultinha no Google ou na Wikipédia].

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luke

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Em outro momento, ouvimos de KyloRen um chamado a “deixar para trás os conceitos antigos: Jedi, Sith, é tudo coisa do passado”. Isso é emblemático do fato de que, ao contrário dos personagens dos episódios anteriores, ninguém nessa nova trilogia pareça conhecer bem a Força, seus mistérios, sua história e seus conceitos.

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Para além dos personagens, outro ponto fraco do filme é a falta de foco do roteiro, que se desvia demais do essencial para gastar tempo em tramas secundárias, que mal se conectam entre si. Embora este seja o filme mais longo de toda a franquia até aqui, a sensação é a de que se poderia cortar pelo menos 1 hora de projeção sem que houvesse prejuízo algum ao enredo.

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Pontos positivos? Sim, claro que há. O visual, como não poderia deixar de ser, é fantástico [com destaque para a fotografia nas cenas da ilha-exílio de Luke e da batalha no planeta gelado], e algumas cenas de ação são, sim, muito boas.

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Em geral, porém, “Os Últimos Jedi” não cumpre o que promete e faz pouco caso da tradição de Star Wars – chega a ser deselegante a maneira como o filme desconstrói, uma por uma, todas as bases sobre as quais se firmaram os filmes anteriores.

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A impressão que ficamos é de que, não tivéssemos visto ali os atores da trilogia original e o logo da Lucas film no início, aquilo tudo poderia ser muito bem uma paródia ou uma versão não-oficial baseada em roteiro de “fan-fiction”, e das mais heterodoxas.

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Não, não parece Star Wars!

Barbeiro Digital