A imortalidade de Sgt. Pepper’s e OK Computer

Os discos, que em maio completaram 50 anos e 20 anos marcam o começo e o fim de um era: a da música pop conceitual

Música
Data: 30 de maio de 2017
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Existem, basicamente, duas espécies de fatos históricos: aqueles que, de tão singulares e relevantes, se firmam como tal imediatamente após seu acontecimento [caso dos atentados de 11 de setembro de 2001, por exemplo], e outros que, malgrado desfrutarem de certa importância no tempo presente, só têm sua historicidade certificada depois de passado certo tempo para a sedimentação.

 

No universo artístico pop, a segunda espécie é a regra absoluta: em meio a tanto lixo e material irrelevante produzido, obra nenhuma é candidata imediata a clássico – por mais que, à época de seus lançamentos, algumas adquiram aprovação quase unânime de público e de crítica. Em outras palavras, ninguém senão o tempo será capaz de dizer se um grande álbum musical ou um grande filme permanecerá despertando interesse igual ou crescente nas próximas gerações.

 

No caso da música pop, nos idos de 2017, já parece ser possível afirmar, com dose mais que razoável de segurança, que dois álbuns, Sgt. Pepper’s Loney Hearts Club Band, dos Beatles [lançado em 26 de maio de 1967], e OK Computer, do Radiohead [lançado em 21 de maio de 1997], conseguiram se firmar como marcos históricos em seu respectivo nicho artístico.

 

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The Beatles e Radiohead: dois grupos britânicos que, apesar de terem poucas semelhanças de perfil, marcaram suas respectivas épocas como nenhum outro artista.

 

Mais que isso: ambos os discos representam, na verdade, o começo e o fim de uma era na qual a música feita para as massas buscava alcançar patamares mais altos, ousando e inovando na estética, na temática, na abordagem, no marketing, etc. Isso não existia antes de Sgt. Pepper’s [exceto por alguns antecedentes dos próprios Beatles], e não voltou a existir depois de OK Computer [exceto por alguns sucedâneos do próprio Radiohead].

 

Explica-se: antes de Sgt. Pepper’s, muitos artistas [os próprios Beatles incluídos] haviam feito álbuns lendários, mas nenhum deles havia tido a pretensão de superar os conceitos usuais do próprio pop. O álbum de 1967 marcou época como nenhum outro antes dele jamais ao misturar rock’n roll com música clássica, música oriental, folkie e outros ritmos. Ao criar efeitos e sonoridades jamais vistos, ao compelir o ouvinte a “viajar” junto com a banda em faixas hipnotizantes, ao trazer letras que traduziam todo o sentimento de uma geração. Ou seja, rompeu com todos os padrões antes estabelecidos.

 

Sgt. Pepper’s obteve também o feito – típico das obras de grandes artistas – de condensar por inteiro o espírito da época em que foi feito, a segunda metade de década de 1960. A contracultura, o grito de afirmação da juventude, a liberalização dos costumes, enfim, toda a loucura e agitação daquele tempo estão ali, mesmo que implicitamente, presentes em cada momento.

 

O rompimento das regras estabelecidas e as mudanças comportamentais da década de 1960 refletiram diretamente a concepção de Sgt. Pepper’sLonelyHearts Club Band. OK Computer tem importância histórica semelhante, só que, do lado oposto, representa o término desse ciclo.

 

A década de 1990, em que ocorreu seu lançamento, correspondeu a um aumento vertiginoso na quantidade de lixo pop jogado no mercado. Exceto pelo grunge americano e pelo britpop inglês, pouco de material denso se produziu. De verdadeiramente original, então, quase nada.

 

Em 1997, quando não se esperava que ninguém mais fosse capaz de fazer revolucionar a música, vem o Radiohead – até então uma discreta banda de rock alternativo – e lança Ok Computer, um álbum diferente de tudo o que se vira antes: desolador, pessimista, lírico e… belo, muito belo, tendo como pano de fundo o modo de vida do fim do século XX.

 

Radiohead

 

Assim como Sgt. Pepper’s trinta anos antes, o álbum exprimia o espírito de seu tempo. Mas, ao invés do idealismo e da euforia da década de 60, este era caracterizado pela angústia e pelo pessimismo: dependência humana das máquinas, alienação social, depressão, consumismo, superficialidade das relações interpessoais, cobrança exacerbada de padrões de comportamento… Não por acaso, apenas dois anos depois, ocorreria a tragédia de Columbine, nos EUA, seguida por várias outras semelhantes envolvendo jovens.

 

Ok Computer representou ainda, em certa medida, a morte oficial do rock’nroll, gênero que já andava cambaleante desde a década de 80, quando passou a ser desbancado por astros pop como Michael Jackson e Madonna, e teve uma sobrevida curta até a década de 90 – de modo que, nos anos 2000, os roqueiros já não produziam mais nada inovador e, hoje, a produção roqueira é quase nula só sobrevivendo em algumas bandas antigas em atividade, mas que não ditam mais nenhuma tendência.

 

Não é exagero afirmar que a obra-prima do Radiohead foi o último grande álbum de música pop. Sim, é verdade que a própria banda voltou a surpreender com Kid A [2000] e In Rainbows [2007], mas em um contexto de concorrência praticamente zero, e com muito menos impacto que em 1997.

 

O fato é que, depois de Ok Computer, ninguém nunca mais fez algo parecido, e muito provavelmente nunca tornará a fazer, a julgar pelo curso das coisas. A sensação é de que não há mais espaço para exercitar a criatividade musical.

 

Os artistas parecem satisfeitos demais consigo mesmos, não buscam ousar, e sim, no máximo, chocar. As músicas parecem pré-fabricadas pela indústria: têm todas a mesma batida, a mesma estrutura, a mesma superficialidade, o mesmo artificialismo.

 

Capa disco Beatles

 

SGT. PEPPER’S LONELY HEARTS CLUB BAND

O oitavo disco dos Beatles, lançado em 1967, foi resultado de um esforço deliberado da banda de mudar sua sonoridade para algo que soasse mais artístico.

 

Somente com Sgt. Pepper’s que se inaugurou o conceito de “art rock”. A começar pela sua capa icônica, que mostrava os quatro Beatles trajados com as roupas da fictícia “banda do sargento pimenta dos corações solitários” ao lado de diversas personalidades importantes da época, passando pela abertura e pelo desfecho das músicas.

 

With a Little Help From My Friends, primeira faixa do disco, retrata magistralmente o espírito jovial e transgressor do fim daquela década.

 

Logo depois, o ouvinte mergulha na viagem psicodélica de Lucy in the Sky With Diamonds [homenagem de Lennon ao LSD disfarçada de música infantil], passa por Getting Better [sobre um garoto rebelde que descobre as delícias da liberdade] e Fixing a Hole [viagem de Paul], até chegar em She’s Leaving Home [que fala sobre uma garota que fugiu de casa deixando os pais atônitos – “ela sempre teve tudo; por que ela fez isso conosco?”, perguntam].

 

Para coroar, o álbum encerra com A Day In the Life: uma música única em todos os sentidos, em que John Lennon mostra um pouco do melhor que sabia fazer.

 

O resultado foi o sucesso instantâneo. Sgt. Pepper’s foi aclamado pela crítica como um marco na cultura pop, e com o passar dos anos o conceito do álbum só cresceu. Em 2003, a aclamada revista Rolling Stone, ao eleger os 500 maiores álbuns de todos os tempos, o pôs no topo da lista, em primeiro lugar.

 

capa Radiohead

 

OK COMPUTER

Terceiro álbum de estúdio da banda Radiohead, Ok Computer impressionou a todos de forma inesperada em 1997.

 

Mesmo sendo repleto de efeitos eletrônicos e vocais embargados de ThomYorke, o álbum tinha uma sonoridade única e era capaz de despertar autênticas emoções no ouvinte e antecipava o século XXI.

 

Airbag, faixa de abertura, falava da aversão às máquinas e aos carros velozes – “Estou maravilhado que tenha sobrevivido. Um airbag salvou minha vida”, ironizava, tendo como fundo uma melodia contagiante. Já a segunda faixa, Paranoid Android, resgata o rock progressivo de bandas como Pink Floyd, com várias melodias diferentes na mesma faixa.

 

Em Subterranean Homesick Alien, vários efeitos eletrônicos dão o tom a uma letra que fala de isolamento social. Na faixa Exit Music, for a Film, os vocais e a instrumentação exprimem toda a melancolia e a angústia de um amor trágico [a faixa foi feita para o filme Romeu e Julieta, daí o nome].

 

Let Down também se caracteriza pela linda melodia, com efeitos eletrônicos super bem utilizados, e uma letra lírica e reflexiva, sobre “aviões decolando e pousando” e “pessoas com o mais vazio dos sentimentos, presas a desejos materiais”.

 

Karma Police, uma das mais bem construídas do álbum, tem um forte tom político, enquanto a estranha Fitter, Happier, espécie de monólogo, tem um tom distópico, na medida em que fala, como se fosse uma máquina de comportamentos: “mais em forma, mais feliz/não beber muito/ exercitar-se três vezes na semana/ flertar mais não se apaixonar/sim ao pragmatismo, não ao idealismo/ ainda chora vendo um filme bom/ ainda beija com saliva/ em forma, mais saudável e mais produtivo/ um porco numa gaiola de antibióticos.”

Barbeiro Digital